Viagem à Nigéria: do Carnaval ao afrobeat

Há sempre uma seleção africana que faz boa figura em Mundiais. Todos suspeitam que possa ser a Nigéria.

06 de junho de 2018 às 14:00Viagem à Nigéria: do Carnaval ao afrobeat

Vamos ver mais danças nos relvados de um Mundial, por causa dos golos da Nigéria? Se é de futebol e se é de música, então é mesmo com a Nigéria, que está pronta para um flashback de glória, vinte anos depois.

Futebol atual

Considerada a seleção mais perigosa do 4º pote no sorteio, as Super Águias vão para o quinto Mundial, com o objetivo firme de melhorar a marca atingida por três vezes em cinco presenças: os oitavos-de-final. A qualificação foi conseguida à custa de Argélia, Zâmbia e Camarões, o que por si é revelador da capacidade de uma seleção que deixou a concorrência a considerável distância e com apenas com uma derrota (Argélia 1-0). Velocidade e potência física continuam a ser os principais atributos de um conjunto de jogadores que alinha nos principais campeonatos europeus. Victor Moses, avançado do Chelsea convertido em lateral direito nos últimos anos, é a principal figura de uma seleção que conta ainda com Iheanacho, avançado que começou a época no Manchester City e terminou no Leicester. O veterano Obi Mikel, agora na China,  Iwobi, avançado do Arsenal, Chidozie, defesa emprestado pelo FC Porto ao Nantes, Elderson, que esteve no Braga e no Monaco e Musa, avançado do CSKA Moscovo, são outras das figuras da seleção africana.

Tem a palavra o alemão Gernot Rohr, com tanto talento (às vezes bruto!) em mãos. O germânico de 64 anos conhece como poucos o futebol africano, depois de ter já trabalhado no Gabão, Níger e Burkina Faso. Gerir os vários momentos do jogo e equilibrar os vários setores da equipa é, provavelmente, um dos maiores desafios que tem em mãos no Mundial. Para já, o sorteio não foi, de todo, azarado para as Super Águias. Têm a palavra Croácia, Islândia e Argentina.

Yekini, lembram-se?
O estatuto de potência africana da Nigéria deve-se muito à década dourada dos anos 90, quando coloriram os Mundiais de 1994 e 1998 com golos magistrais e aquelas danças em grupo nos festejos dos golos, tendo atingido em ambas as vezes os oitavos-de-final. Quando deram música nos relvados no Mundial dos Estados Unidos em 1994, dois jogadores bem conhecidos dos nossos relvados faziam parte desta equipa: o goleador do Vitória de Setubal Yekini (em grande forma!) e Amunike (avançado que se iria transferir para o Sporting naquele mesmo ano). Foi de Yekini o primeiro golo de sempre da equipa das “águias verdes” num Mundial, em 1994, frente à Bulgária de Stoichkov. Ficou eternizada a sua imagem de agradecimento aos deuses, agarrado às redes onde tinha feito o gosto ao pé.

Pelo meio, a Nigéria foi campeã olímpica em Atlanta, em 1996. O país estava em grande. E pode ainda reclamar três títulos de campeão africano, o último dos quais em 2013... Um palmarés imponente, à altura de um país com quase 190 milhões de habitantes.

 

O reino do afrobeat
Se a Nigéria for entendida como o reino do afrobeat, o seu rei foi sem dúvida o saxofonista e cantor Fela Kuti (1938-1997), que foi nos anos 70 o ícone maior de um género urbano distintivamente nigeriano que mistura ritmos e cantos africanos com o funk e o jazz, e que hoje se toca um pouco por todo o mundo. Era comum aquela imagem do saxofonista Fela Kuti de tronco nu e de cara pintada, a mexer-se entre os saxofones e o canto, durante os seus concertos, noite fora, até ao amanhecer, nos clubes de Lagos e mesmo nas favelas. Não teve medo de enfrentar e criticar os vários governos corruptos da Nigéria, arriscando a pele vezes sem conta num pais ditatorial e militarizado. Essa oposição destemida custou-lhe a violência das autoridades contra ele e contra os seus músicos. Custou-lhe igualmente a prisão e ainda a morte da mãe numa rusga policial. O legado de Fela Kuti tem sido continuado pelos seus filhos Femi e Seun Kuti, ambos ligados ao afrobeat e que têm actuado em Portugal, incluindo no Festival de Músicas do Mundo de Sines. Outro continuador da obra é o seu antigo baterista Tony Allen.

Outra lenda da música nigeriana é King Sunny Adé, que inspirou rótulos como afropop. Com uma discografia de mais 100 álbuns, o músico diluía-se naquele esforço coletivo das suas bandas e daquelas jams. Ninguém como ele internacionalizou tanto o jùjú, o grande estilo musical da tradição yoruba, a etnia a que pertence King Sunny Adé.

Não nos esqueçamos também de Sade Adu, a maior estrela feminina de origem nigeriana, que deu um ângulo tropical à pop nos anos 80. Chamaram de smooth soul às canções desta intérprete de charme nato. Que assim seja.


Inhame nhame!
Muita da cozinha nigeriana é à base de um tubérculo subterrâneo e enorme, confundido erradamente com a batata doce: o inhame. Só para encontrar um exemplo entre muitos, há o empapado yam porridge (visualmente semelhante à papa de aveia, exceto na cor), feito com óleo de palma, picantes e lagostim moído.

O arroz é base de muitos pratos no país, o mais popular o de jollof, muito apreciado na África ocidental. O prato picante e avermelhado de molho de tomate pode ter como ingrediente principal o peixe e marisco (se for na zona costeira) ou carne de galinha (no interior). O feijão também merece a paixão degustativa dos nigerianos, como bem comprova os akaras, fritos comidos em várias refeições, incluindo ao pequeno-almoço. Entre os muitos cozinhados de carnes, o suya é dos poucos que une este país de 500 etnias diferentes: falamos de espetadas de carne, preparadas em pasta de amendoim e numa mistura de especiarias de nome yaji antes de irem à grelha

O tempo quente do país pede uns quantos refrescos, um dos mais característicos é o zobo, o nome de uma planta nigeriana que depois de fervida em água, escurece o jarro onde é servido bem frio. Podem escolher-se as frutas mais a gosto para esta bebida doce, que leva também gengibre.


A consciência literária africana
Algumas das maiores figuras nigerianas fora de portas são escritores. Wole Soyinka tornou-se no primeiro Nobel da Literatura africano em 1986, depois de anos a fio a criticar os sistemas políticos corruptos do país. É de um nigeriano, Chinua Achebe, um dos grandes clássicos da literatura africana, "Things Fall Apart", onde através de alguns provérbios locais, aborda os efeitos do imperialismo britânico. Das novas gerações, Chimamanda Ngozi Adichie tem tido muitos seguidores em todo o mundo. Tem atentado o sistema machista do seu país com uma escrita que chama a atenção para a falta da inclusão social das mulheres, mas está longe de se esgotar nesta temática. "Querida Ijeawele", "Todos Devemos Ser Feministas" e "Americanah" são alguns dos seus livros traduzidos por cá.

Outros nigerianos que se têm destacado têm sido basquetebolistas da NBA, sobretudo o lendário Hakeem Olajuwon, duas vezes MVP e campeão da famosa liga norte-americana ao serviço dos Houston Rockets.

Apesar dos níveis altos de criminalidade ligado a gangues, a Nigéria tem atraído muitos turistas, sobretudo durante todo o mês de dezembro quando decorre o Carnaval de Calabar, talvez a maior festa de rua de África. Está longe de ser apenas um desfile de máscaras. É um autêntico evento multicultural, de dança, música, moda e até de regatas. Mas, longe do rebuliço, há maravilhas naturais mais remotas como as águas supostamente curativas de Ikogosi Warmsprings, que são grandes cataratas; ou os picos de Idanre Hills, onde se encontram resquicícios de civilizações mais antigas, muito anteriores ao colonialismo europeu.


 

 

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