Viagem à Dinamarca: dos doces ao andebol

Christian Eriksen levou a Dinamarca de volta a um Mundial. Que maravilhas fará mais a estrela do Tottenham?

06 de junho de 2018 às 07:00Viagem à Dinamarca: dos doces ao andebol

O país que tornou a nossa infância melhor, graças às peças de Lego e aos contos de Hans Christian Andersen, quer voltar a lembrar ao mundo que também é bom de bola. Alguém mais conseguirá acompanhar os brilhantes raides e disparos do futebolista do Tottenham, Christian Eriksen? Os dinamarqueses desejam que sim, para que possam brindar muitas vitórias no Rússia 2018 com cerveja - dinamarquesa, claro. 

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Futebol atual

Depois da ausência no Brasil, há quatro anos, aí está de novo a Dinamarca, para o seu quinto Mundial. O bilhete para a Rússia foi conquistado apenas no último dia, através de um play-off em que se impôs por números esclarecedores: 5-1 no segundo jogo, com a República da Irlanda, depois de 0-0 na primeira mão, em casa. Figura proeminente na seleção nórdica, o elegante Christian Eriksen, do Tottenham, autor de três golos no decisivo jogo de Dublin, e é sobre o médio que estão focados todos os olhares de esperança de uma nação que não conquista títulos desde o Europeu de 1992, na Suécia. Daí para cá, o melhor que conseguiu, em Mundiais, foi chegar aos quartos-de-final, em 1998.

O norueguês Age Hereide (64 anos) é o treinador responsável pelo regresso dos dinamarqueses a fases finais de Mundiais, depois de substituir o mítico Morten Olsen, na sequência do falhanço na qualificação para o Europeu de França. O experiente técnico já dirigiu a sua seleção durante quatro épocas, mas é agora, por outra formação nórdica, que vai poder mostrar o seu talento ao Mundo. Tem a palavra Eriksen (talvez desde Laudrup que não se via um futebolista tão talentoso na Dinamarca), Pione Sisto (extremo velocíssimo do Celta Vigo), Poulsen (avançado do Leipzig) e Kasper Schmeichel (guarda-redes do Leicester, filho do mítico Peter Schmeichel). Os adversários da primeira fase (Perú, Austrália e França) dão esperanças aos nórdicos na passagem à segunda fase.

 

 

Férias de 1992 interrompidas para o título europeu
Ainda hoje parece uma fábula a caminhada da selecção dinamarquesa quando ganhou o Euro 1992. Convocados a meio das férias depois da suspensão em cima da hora da Jugoslávia (por causa da guerra dos Balcãs), os jogadores dinamarqueses eram os underdogs do torneio, as presas fáceis para as favoritas (e melhores preparadas fisicamente) Inglaterra (4ª no Itália 90) e França de Papin, e mesmo para os vizinhos e anfitriões suecos. Mas a Dinamarca sobreviveu e mandou os franceses para férias antecipadas, aquelas mesmo que Laudrup e companhia não se importaram de interromper. Por quantos a Holanda de Gullit e Van Basten (e de Koeman e de Bergkamp) iria ganhar nas meias-finais, perguntava-se. Bem… Como a Laranja Mecânica não matou o jogo, seguir-se-iam os penaltis, onde estava um muro chamado Peter Schmeichel, que prolongou com a sua luva o sonho para a final. Quem os esperava eram os alemães, já a fazer contas para mais um título internacional. Mas já ninguém poderia parar a Dinamarca para um inesperado título europeu numa das maiores surpresas de sempre do futebol, com uma lição a tirar: nunca subestimem adversários mais fracos, mesmo que possam vir com uma corzinha de sol.
 
A história da seleção dinamarquesa é curiosa. Com tradição olímpica no futebol - e três medalhas de prata (em 1908, 1912, e 1960), quem nos dera a nós - só se estrearam num Mundial em 1986, mesmo que tenham tido nos anos 70 um Bola de Ouro chamado Allan Simonsen. Mas o batismo no México '86 era logo com uma formação candidata ao título mundial e alcunhada de Dinamite Dinamarquês, com explosivos como Elkjær Larsen, o menino d’oiro Laudrup e Lerby. Ganharam os três jogos da primeira fase, incluindo contra a Alemanha Federal de Völler e Matthäus, mas caíram de forma estrondosa perante um endiabrado Butragueño que escolheu aquela tarde de 18 de junho de 1986 como a mais inspirada da sua carreira, assinando um poker (4 golos!) que ajudou a Espanha a golear a Dinamarca por 5-1.
 
Bem menos emocional é história dos clubes dinamarqueses, quase todos semi-amadores. Há sempre a esperança de poder erigir um gigante internacional dentro daquele pequeno reino escandinavo. O sonho de há alguns anos chama-se FC Copenhagen, que para já é apenas um papa-títulos interno.
 
Muito circunstancialmente, foram passando pelo futebol português alguns jogadores dinamarqueses. Lembram-se daquele "alto, loiro e tosco" benfiquista com quem o treinador portista José Maria Pedroto embirrava. Ele era o avançado guedelhudo Michael Manniche (o tal que influenciou o nome do centro-campista português Maniche) que, apesar do estilo pesadão e pouco habilidoso, ainda valeu bastantes golos ao Benfica entre 1983 e 1987, autênticos petardos que testavam a resistência das redes da baliza. Outro grandalhão dinamarquês residia mesmo na baliza. Era o guardião sportinguista Peter Schmeichel que vinha tão viciado em títulos (cinco Premier Leagues, campeão europeu das nações, e uma Liga dos Campeões acabadinha de vencer) que ajudou a quebrar o jejum leonino de 18 anos sem ser campeão em menos de 12 meses. Mereceu a ovação de um estádio inteiro, no antigo Alvalade, quando subiu ao palanque dos campeões, na noite de consagração - e uma das mais longas para os sportinguistas - a 14 de maio de 2000.             

 
A bateria carregadora dos Metallica
Muito provavelmente, o músico dinamarquês mais conhecido em todo o mundo pertence a uma banda norte-americana. Falamos do baterista e fundador dos Metallica, Lars Ulrich. Confundidos como norte-americanos pela sua sonoridade hard-rock e pela fluência na língua inglesa, os D.A.D. são a banda dinamarquesa que mais invadiu o éter radiofónico internacional no final dos anos 80 e início dos anos 90, com malhas como 'Sleeping My Day Away' ou 'Rim of Hell'.
 
Com garras rock mais alternativas, os Raveonettes têm brilhado em muitos festivais pelo mundo fora. Também do mundo indie, Oh Land coloriu a pop com as suas coreografias bem dançantes. Na pop propriamente dita, num contexto mais eurodance, os Aqua criaram a sua 'Barbie Girl' (de 1997) e uma conta mais avultada.
 
É na Dinamarca que está um dos maiores festivais rock do mundo, o Festival de Roskilde, no norte da ilha maior Zealand. Criado durante a era hippie, foi atraindo os maiores nomes como os Kinks (1972), Bob Marley (1978), U2 (1982), Sting (1988), David Bowie (1996) ou os Rolling Stones (2014), com uma matriz alternativa, que permitiu ter alguns nomes de culto do momento. A nível de audiofilia, os sistemas sonoros da dinarmarquesa (pioneira em tecnologia) Bang and Olufsen fazem as delícias dos mais exigentes.

 

O reino da cerveja
A obsessão dos dinamarqueses (e dos escandinavos) por comida italiana, com pizzarias e afins a cada esquina, quase que extingue a comida local, difícil de encontrar nas ruas, mesmo numa cidade de província mais longe da cosmopolita Copenhaga. A ligação do povo com a gastronomia é mais utilitária que cultural. Por isso, é difícil de acreditar que é em Copenhaga que está o restaurante tido em tempos como o melhor do mundo, como o Noma, conhecido por ter "reinventado a cozinha nórdica".

Na vida real, longe das estrelas Michelin, o que se vê com frequência são os smørrebrød, sandes abertas, em que o pão escuro (normalmente de centeio) serve como se fosse prato de loiça, onde se põe tudo em cima, desde carnes e ovo mexido, a camarões, filetes de peixe, pepinos ou rodelas de tomate, sempre com creme de rábano picante ou molho de mostarda prontos a molhar. Os smørrebrød são lindos para decorar mesas e até montras de cafés, o mesmo que acontece com a famosa doçaria dinamarquesa, que faz das confeitarias autênticos museus, com bolos com os mais diversos feitios. As bolachas de manteiga têm fama escandinava, mas os wienerbrød (cobertos de chocolate ou de doce de maçã, entre outras coisas) também a merecem.

O que é de qualidade indubitável bar sim bar sim, torneira sim torneira sim, é a cerveja. A Carlsberg e a Tuborg são as maiores distribuidoras, mas a mais idolatrada entre os apreciadores é de longe a Mikkeler, que já se vai encontrando por cá. É dinamarquesa a sidra mais famosa por cá, a Sommersby, mais ao gosto adocicado de quem gosta de refrigerantes. A nível de bebidas destiladas (no caso, a partir das batatas e cereais), um copinho de akvavit faz parte dos costumes sociais.

 

Parque infantil gigante
Não é preciso ter-se uma herança histórica romana para um país ser bonito. Basta ter design e arquitetura de ponta, que é o que acontece com a Dinamarca, um país de cidades harmoniosas, casas coloridas (com uma queda para o amarelo torrado) e objetos tão funcionais quanto prazerosos ao olhar. A grande obra de arquitetura de reconhecimento internacional por um dinamarquês é a Sydney Opera House de Jørn Utzon. Conhecidos pelo design, desde candeeiros minimalistas e cadeiras encurvadas a tigelas majestosas, expandiram novos conceitos de bicicletas como as cargo bikes (de três rodas e com um enorme depósito à frente do guiador), num país repleto de ciclovias e com algumas das cidades mais funcionais do mundo como Copenhaga. Mas a nível de design, o conceito que mais revolucionou foi a Lego, que se meteu na nossa infância e na nossa paternidade com aquelas peças que nos deixam construir o que a nossa criatividade permite.

É deste país dado ao imaginário infantil que veio o escritor de (mais de três mil!) contos infantis Hans Christian Andersen que nos embalou em tantas noites. O cinema de animação agradeceu esta fonte literária fantasiosa, incluindo a Disney. Mas há muito mais na literatura dinamarquesa. O filósofo existencialista Kierkegaard cruzou-se nos nossos manuais escolares. E a escritora Karen Blixen escreveu o livro autobiográfico "África Minha", sobre a vivência na Quénia colonial, que serviu de base ao filme oscarizado de Sidney Pollack do mesmo nome.
 
O cinema dinamarquês propriamente dito tem algum peso histórico, muito graças à filmografia de Carl Theodor Dreyer, conhecido pelas suas temáticas religiosas, sobretudo no filme "A Palavra" (de 1958), mas também pela forma dramática como captou o rosto da soldada mártir francesa Joana D' Arc no filme mudo de 1928, "A Paixão de Joana d'Arc". Lars Von Trier é hoje o cineasta dinamarquês mais reconhecido e premiado, autor de filmes como "Ondas de Paixão" (de 1996) e "Os Idiotas" (de 1998), ou da sua visão cética sobre a América em "Dogville" (de 2003). Ele foi um dos cabecilhas do movimento dinamarquês Dogme 95, que instigou o cinema de câmara à mão, sem estúdio e sem efeitos especiais, filmado em 35mm e contra o artificialismo. A nível de produção audiovisual, a Dinamarca tem dado também cartas a nível de séries de TV. O policial "The Killing: Crónica de um Assassinato" ou a série sobre uma Primeira-Ministra da Dinamarca "Borgen" animaram muitas conversas por cá.      

O andebol é outra das grandes paixões dos dinamarqueses. A seleção masculina é a atual campeã olímpica de uma modalidade muito praticada pelas mulheres, o que tem permitido um grande palmarés à equipa feminina: três medalhas de ouro olímpicas, três vezes campeã europeia e um título mundial. O ciclismo dinamarquês costuma ganhar medalhas e até já teve um vencedor de um Tour de France: Bjarne Riis, em 1996.

 

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