Viagem ao Peru: dos incas a Vargas Llosa

36 anos depois, o Peru regressa a um Mundial. Conseguirá o país dos incas repetir as proezas do tempo do ex-portista Cubillas?

29 de maio de 2018 às 14:00Viagem ao Peru: dos incas a Vargas Llosa

O Peru é mais conhecido pela civilização dos Incas, pelo Machu Picchu, pelos livros de Mario Vargas Llosa, ou pelo ceviche (cada vez mais popular por cá), do que propriamente por um grande desportista - exceção feita a Cubillas... Aliás, o futebolista Cubillas era todo ele uma exceção, de grande memória para os portistas mais antigos. Quem será o próximo herói peruano dos relvados?

Futebol atual

Da última vez que o Peru marcou presença em fases finais de Mundiais, ainda nenhum dos actuais mundialistas era nascido! Nem mesmo o facto de ter sido a última das 32 seleções a conquistar o direito ao Mundial diminuiu a emoção de um país que há 36 anos esperava regressar aos principais palcos do futebol à escala planetária! E não foi um caminho fácil até à Rússia! O apuramento pareceu comprometido depois de apenas uma vitória nas primeiras seis jornadas. Mérito por isso ao treinador argentino Ricardo Gareca que recuperou uma equipa deprimida, valeu-se da experiência dos veteranos Guerrero e Farfán e rodeou-se de jogadores como Cueva, Carrillo ou Ruidiaz. Foi graças a uma segunda volta fantástica, com triunfos sobre Uruguai, Bolívia e Equador, e empates com Argentina e Colômbia, que o Peru conquistou, ao photo-finish, a vaga de play-off, deixando o Chile com os mesmos pontos de fora das contas para o Mundial! Na repescagem final, não falhou com a Nova Zelândia, valendo a vitória por 2-0 na segunda mão (golos de Farfán e Ramos) depois do 0-0  no primeiro jogo.

Depois de ter chegado às meias-finais da Copa América em 2015 e aos quartos-de-final da Copa América em 2016, seguiu-se o apuramento para o Rússia-2018. Uma seleção em evolução, que tem quatro jogadores bem conhecidos dos portugueses: Alberto Rodriguez (central que passou pelo Braga e Sporting), Carrilo (ex Sporting e Benfica), Hurtado (atualmente no V. Guimarães) e Advíncula (lateral que vestiu a camisola do V. Setúbal). O objetivo natural, até pelo sorteio da primeira fase, está definido: terminar nos primeiros dois lugares e chegar aos oitavos-de-final. Seria altamente positivo para quem não está na competição desde 1982.

 

Depois de Cubillas, um longo marasmo
O Peru tem chamado mais atenção pela beleza e originalidade do seu equipamento - uma linha diagonal vermelha que passa pela camisola branca - do que propriamente pelo historial. Ao longo das últimas décadas, a seleção dos incas tem sido assídua na segunda metade da classificação do grupo de qualificação da América do Sul, que é o mesmo que dizer que não se tem apurado para a fase final.   
 
Antes de Cubillas, o Peru não existia para o Mundial (excluindo a participação 100% derrotada no Uruguai 1930). Depois de Cubillas, o Peru deixou de existir para o Mundial. A relevância do país na maior competição de nações tem como exclusivo a presença do jogador ex-portista, apoiado por outros grandes como o central Chumpitaz e o centro-campista Hugo Sotil. As participações de Cubillas nos Mundiais de 1970, 1974 e 1982 fizeram dele um dos maiores goleadores do evento planetário, com um total de 10 golos. O que é que o Peru ganhou com isso? A presença nos quartos-de-final do México '70, a passagem à segunda fase do Argentina '78 e a imposição de respeito no plano internacional. Depois, a seleção recolheu-se novamente no seu insucesso.
 
Essa grande equipa peruana ganhou ainda uma Copa América, em 1975 (a segunda da sua história), numa final a duas mãos, onde nem sequer esteve presente a sua maior estrela, Cubillas (é a quinta vez que escrevemos o seu nome!). A nível clubístico, só três países sul-americanos não têm vencedores da Copa Libertadores e o Peru é um deles.

 
Flautas andinas a ouvirem-se bem alto
Nunca a música peruana foi tão conhecida como nas vozes de Simon & Garfunkel, na sua versão em inglês, de 1970, de 'El Cóndor Pasa...', uma zarzuela peruana, com os típicos sons andinos de sopros: aquelas espécies de flautas de bambu, como as quenas ou as antaras, que se encostam com o lábio inferior para serem soprados.
 
A cultura índia andina pré-colombina está por trás de muita música peruana, tal como os afro-peruanos, escravos vindos de África que inventaram vários instrumentos de percussão como o cajón, uma caixa de madeira de percussão. A nível de instrumentos de corda, o mais marcante é o charango, espécie de bandolim, mas com cinco cordas duplas em vez dos quatro pares. Mas também o bandolim está fortemente ligado à música tradicional peruana.


Ceviche e pisco sour à mesa
A grande civilização inca e o cosmopolitismo cultural com a Europa (através dos colonos), África (através dos escravos) e Extremo Oriente (através dos imigrantes) servem-se no prato e são saborosos. O mais famoso do Peru é sem dúvida o ceviche, peixe branco cozinhado (de preferência, corvina), marinado em limão ou lima, misturado com cebola roxa e acompanhado por batata doce. Como é um prato frio, é uma óptima opção para os verões quentes.
 
Além do uso abundante de lima (curiosamente, palavra homónima da capital peruana) na cozinha peruana, há ainda mais de quatro mil variedades de batatas!, mais de 50 tipos de milho e uma grande diversidade de picantes (muito presente em pratos de arroz de marisco). Entre as numerosas formas de cozinhar a batata, a mais conhecida é a causa (puré de batata com pimento amarelo chamado ají).
 
Há sopas aos pontapés, tão diferentes como a sua paisagem. Há até sopas quase sem caldo como o bem picante aguadito de frango. Outra originalidade para nós é o facto das folhas de milho e das folhas de bananeira envolverem alguns cozinhados. Não é só o mar peruano que é rico em peixe (pargos e corvinas) e em marisco (camarões e amêijoas). No interior, há também boas carnes: um dos pratos mais requisitados é o ají de galinha. Há que ter sempre em conta a importância dos molhos: o molho crioulo (com o picante ají) ou o molho de abacate estão entre os mais famosos.
 
O Peru é um dos poucos países em que a bebida gasificada mais consumida não é a Coca-Cola mas sim a local e mais esverdeada Inca Kola, feita a partir de lúcia-lima (mas já adquirida parcialmente pela Coca-Cola). Mas há mais bebidas frias a ter em conta, nomeadamente o vinho branco da zona de Ica e sobretudo o popular cocktail pisco sour, que tem como base o licor peruano Pisco, a que se junta sumo de lima, claras, uma gotas de xarope e, claro, gelo. A nível de bebidas quentes, há o mate de coca que é remédio santo para as grandes alturas da cordilheira dos Andes.
 
Em Portugal, não falta hoje oferta de comida peruana. A Cevicheria (no Príncipe Real, em Lisboa), sob as inovações autorais e de fusão do Chef Kiko, é muito requisitado. Mas para os mais puristas, há o pequenino Qosco (junto ao Campo das Cebolas, em Lisboa), ou o Incanto Peruvian Restaurant (em Cascais). No Bairro do Avillez (no Chiado, em Lisboa), espera-nos a Cantina Peruana (com um toque mais contemporâneo pelo chef Diego Muñoz).

 

Machu Picchu
Uma das eleitas sete novas maravilhas do mundo fica no Peru: o Machu Picchu, uma cidadela dos tempos dos incas, junto a um dos picos montanhosos dos Andes. Fica a mais de 2000 mil metros de altura, numa panorâmica deslumbrante, e num jogo engenhoso entre geografia e humanidade. Outro engenho humano é a escrita do Nobel da Literatura de 2010 Mario Vargas Llosa, a grande figura cultural do Peru. "A Cidade e os Cães" (de 1963), "A Casa Verde" (de 1966) ou "A Guerra do Fim do Mundo" (1981) são alguns dos seus maiores livros.

 

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