Viagem à Austrália: do boomerang aos crocodilos

Um país que não tem o futebol como desporto-rei dificilmente o dominará. Para já, a missão australiana no Rússia 2018 parece uma utopia.

04 de junho de 2018 às 07:00Viagem à Austrália: do boomerang aos crocodilos

A Austrália é um autêntica potência desportiva mas não futebolística. Saltitam como cangurus entre o râguebi, o criquete e o surf. O sexto maior país do mundo em área, mas com uma população que é metade da Espanha, foi fabricando ídolos planetários. Mas não no futebol.

Futebol atual

Não foi fácil à Austrália chegar ao Mundial! Foram necessárias duas repescagens para garantir o passaporte para a Rússia. Se com Honduras, a tarefa pareceu simplificada (0-0 e 3-1), antes, com a Síria, foi necessário o recurso ao prolongamento para garantir a qualificação, depois de um terceiro lugar num grupo em que Japão e Arábia Saudita alcançaram o apuramento direto. A seleção australiana foi o 33º passageiro a garantir vaga para a Rússia (também por causa do fuso horário), o que demontra a dificuldade que o atual campeão asiático teve para chegar ao seu quarto Mundial consecutivo.

As inesperadas dificuldades para alcançar o objetivo custaram o lugar ao treinador. Ange Postecoglu estava no cargo há quatro anos e cedeu o lugar ao holandês Bert Van Marwijk, que conduziu a Holanda à final do Mundial de 2010, na África do Sul. O holandês de 65 anos pode contar com a veterania de Tim Cahill, que, aos 38 anos, vai para o seu quarto Mundial, Matt Ryan, guarda-redes que ganhou experiência na Europa (Brugges e Valencia), e do médio Jedinak, jogador do Aston Villa e herói ao marcar golos decisivos. A Austrália é uma grande incógnita para este Mundial, até pela renovação que está em marcha nos cangurus (atenção a Juric, Moy, Luongo e Leckie) mas sonhar com os oitavos-de-final é um sonho legítimo para os australianos.

11 contra 15
A relevância da Austrália no futebol esgotava-se na rivalidade oceânica com a vizinha Nova Zelândia. Os demais arquipélagos deste continente aguado eram tão minúsculos como o futebol dos cangurus à escala planetária... Até aparecer um treinador holandês perito em revolver problemas, Guus Hiddink, que comandou a campanha de boa memória da seleção dos cangurus no Mundial de 2006. Além da inédita qualificação para a segunda fase da competição, a Austrália só caiu perante a Itália e perante um penalti aos 95 minutos convertido por Totti.

Desde que a Austrália se cansou de competir só com a Nova Zelândia e se virou para a bem maior Ásia, já pode reclamar um título continental condigno: foram campeões asiáticos em 2015. Mas o grande rival de peso do futebol australiano não é a Nova Zelândia, nem a Coreia do Sul, mas sim a bem maior popularidade do râguebi no país que marginalizou durante décadas o desporto de 11. Na grande ilha dos aborígenes, sempre se festejaram muito mais ensaios do que golos.

 

O sotaque diferente do rock
Embora longe do eixo dominante do Atlântico norte, entre o Reino Unido e os Estados Unidos, a Austrália fala a mesma língua, o universal inglês, o que é meio-caminho andado para conquistar o mundo. Foi o que fizeram os AC/DC, com mais de 200 milhões cópias vendidas em todo o mundo, com ou sem o malogrado vocalista Bon Scott, e com o estatuto de lendas do hard rock. Os INXS experimentaram o sabor da glória de um Estádio de Wembley cheio, na curva entre os anos 80 e os 90s, com a ajuda do carisma de estrela rocker do vocalista Michael Hutchence que aproveitou o embalo de auto-estima que só o sucesso sabe alimentar. Os Crowded House, através de 'Don't Dream It's Over' e 'Weather With You', e os Midnight Oil, com a ajuda de 'Beds Are Burning', também habituaram o mundo do pop-rock ao sotaque australiano. Mas a grande ilha do hemisfério sul também foi berço de estrelas pop: Olivia Newton-John transformou um estúdio num imenso ginásio quando cantou 'Physical' e pôs os telespetadores a fazer exercício físico; Kylie Minogue era uma cara bonita de telenovelas australianas até um primeiro êxito mundial, 'I Should Be So Lucky' - e depois um segundo e depois um terceiro, e por aí fora - a transformar numa princesa dos palcos.
 
Do rock underground, o grande gigante tem sido Nick Cave, que, vindo dos cacos dos blues e do pós-punk, se foi aprumando de fato e gravata com aquelas canções aparentemente tradicionais e evidentemente brilhantes. Com talento cancioneiro de similar valor e quanta elegância, também os Go-Betweens e os Triffids transformaram o indie no Jardim do Éden. Os Dead Can Dance inventaram um espaço só para eles, entre o rock gótico, a folk de inspiração britânica e os sons étnicos de terras orientais. Antes, em 1977, os Saints aproveitaram a arruada do punk e inscreveram o seu nome no movimento à custa da refilice de 'This Perfect Day'.

Hoje, o aparecimento de uma banda rock australiana já não é um exotismo. Os Tame Impala dominam hoje a música psicadélica atual, com um universo estético que vai dos Pink Floyd aos Animal Collective. Os ataques de saudades do synth-pop dos anos 80 dos Cut Copy foram também do mundo alternativo quando abraçaram o orelhudo 'Lights & Music'. Os Empire of the Sun também conhecem a arte de ligar a canção pop à eletrónica, para prazer radiofónico de muitos.

Música também são espaços. É na Austrália que acosta uma das salas de espetáculos que é já de si um espetáculo: a Ópera de Sidney.


Um paraíso chamado Tasmânia
Poderiamos mitificar o gosto de uma pequena minoria por carne de canguru e de crocodilo, mas na verdade grande parte da população australiana é muito protetora da sua fauna e tem outras preferências. A natureza australiana é tão exótica que dá frutos e plantas selvagens que não têm sequer tradução na língua de Camões, como os avermelhados quandongs, os kakadu plums (ricos em vitamina c) ou os lemon myrtles (planta que serve de condimento na cozinha australiana).

Mas o grande paraíso para o paladar australiano é a ilha da Tasmânia, que dá marisco sem rival como as ostras da rocha e lagostins. Mas não é só a costa que torna a ilha mágica para o manjar. Os rios e lagos da Tasmânia dão também salmões e trutas magistrais. E as pastagens brindam o país com o bife mais aclamado: o bife da Tasmânia.  

Com as graças do tempo soalheiro, os australianos gostam de se juntar em grupo para boas churrascadas, desde salsichas a marisco, nomeadamente camarões. Sempre com cerveja a acompanhar e pelos vistos cada vez melhor, tendo em conta o crescimento de produção artesanal (hoje uma vasta gama de IPA, pale ale e stouts). Mas a marca mais famosa é a Foster's. O que não é mito é a grande produção vinícola do país, com alguns dos melhores vinhos do mundo, incluindo, claro, da prodigiosa Tasmânia. Não é mito.


Natureza selvagem
A Austrália é conhecida pela sua fauna muito própria: os mais distintos são os saltitantes cangurus e os dorminhocos coalas, presentes em muitos jardins zoológicos à volta do mundo. Mas há muito mais. Os gatos-tigres (às bolinhas brancas) têm pouco a ver com felinos e são marsupiais como os fedorentos diabos-da-tasmânia. Nalgum eucaliptal, pode ser que se encontrem os pequeninos petauros-do-açúcar (pesam pouco mais de 100 gramas). O país é todo ele uma riqueza de biodiversidade, desde os lindíssimos dragões marinhos aos vários tipos de sapos e de serpentes prontos a assustar qualquer humano. Na Austrália é tudo em grande: têm a segunda maior ave do mundo, os emus, e os maiores crocodilos do mundo na costa do norte da Austrália, os perigosos crocodilos-de-água-salgada, que chegam a pesar mais de 1500 quilos e com 6 a 7 metros de comprimento. Mas são os dingos (cães selvagens) o maior predador da Austrália, a seguir ao homem que, com a sua ação insensível com o ecossistesma, é responsável pela extinção de um número elevado de espécies exclusivamente australianas. Quem não tem assim tanta culpa disto são os nativos, os famosos aborígenes, conhecidos pelas suas danças tribais e sobretudo pela sua esvoaçante arma de caça, o veloz boomerang. Prestam culto a Uluru, a grande rocha alaranjada da Austrália, que é uma das grandes atrações para qualquer viajante, a par da deslumbrante Great Ocean Road, que serpenteia a costa do sudeste da ilha - a Route 66 dos amantes do mar.

Se a Roménia era o depósito de reclusos do Império Romano, à Austrália coube a mesma sorte no Império Britânico. É precisamente de um condenado irlandês para lá enviado que descende o maior fora-da-lei australiano, Ned Kelly, o Robin dos Bosques do século XIX, rebelde popular que inspirou a primeiro longa-metragem da história do cinema, "The Story of the Kelly Gang" (de 1906). Nascia assim a produção audio-visual australiana que, depois do cinema, passou a produzir na era da TV grandes séries televisivas. Algumas delas passaram a integrar a programação dos nossos canais de TV públicos, como o drama "Regresso a Banguecoque", onde passámos a conhecer Nicole Kidman, cuja carreira seguiria com todo o sucesso para Hollywood. O mesmo destino esperou outras atrizes compatriotas como Cate Blanchett e Naomi Watts, num país que tem dado alguns machos carismáticos para a grande tela como Russell Crowe ou o malogrado Heath Ledger. A paisagem australiana, neste caso o asfalto, inspirou o policial futurista "Mad Max" que imortalizou Mel Gibson. É da Austrália que vem a personagem cinematográfica Crocodilo Dundee, interpretada por Paul Hogan: o homem que é tão bravo no mato como na floresta de cimento nova-iorquina. Peter Weir é um dos realizadores australianos mais internacionais, autor de filmes emblemáticos dos anos 80 como "A Testemunha" e "O Clube dos Poetas Mortos". Baz Luhrmann segue-lhe hoje as pisadas, mas mais nos musicais como "Romeu + Julieta" (de 1996) e "Moulin Rouge!" (de 2001).

A Austrália é um país de desporto, basta aferir o quadro geral de medalhas olímpicas. Muitas delas devem-se aos grandes nadadores, o mais emblemático deles Ian Thorpe, o Torpedo, pentacampeão olímpico e 11 vezes campeão mundial. E às grandes nadadoras, como Dawn Fraser (campeã olímpica em 1956, 1960 e 1964), Shane Gould (tricampeã olímpica em 1972) e Susie O'Neill, a "Madame Butterfly", isto é a senhora da mariposa (campeã olímpica em 1996). O atletismo australiano também foi dando cartas, fosse na velocidade através da campeão olímpica dos 400 metros Cathy Freeman ou na maratona através do campeão do mundo e antigo rival de Carlos Lopes, Robert de Castella. A velocidade maior, ao pedal, o ciclista Cadel Evans já venceu uma Tour de France em 2011. A velocidade vertiginosa, ao volante, Jack Brabham foi tricampeão do mundo de Fórmula 1. A herança do Império Britânico faz-se sentir no desporto australiano. No ténis, o maior dos courts foi Rod Laver, que ganhou todos os Grands Slams que havia para ganhar e ainda deu cinco Taças Davis à Austrália. Greg Norman dominou os campos de golf nos anos 80 e 90. E no criquete não têm faltado estrelas como Donald Bradman ou Shane Warne. Mas é o râguebi a grande paixão, sobretudo a seleção nacional, os wallabies, já campeã do mundo por duas vezes (em 1991 e 1999).

Não é só no relvado que a Austrália brilha. Nas ondas do mar também as coisas correm bem, sobretudo no surf. No circuito profissional masculino tem havido vários campeões do mundo, o mais recente Mick Fanning, com três títulos planetários - em 2007, 2009 e 2013. No circuito feminino, ninguém se esquece da hexacampeã do mundo Stephanie Gilmore. É tamanha a paixão do país pelo desporto que a grande marca australiana no mundo é uma fabricante de equipamentos e acessórios de surf e skate (entre outros): a Quiksilver.

 

 

 

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