Viagem ao Egito: dos faraós às baklavas

É apenas a terceira presença num Mundial do país com mais sucesso futebolístico em África. Do Estado das Pirâmides e da dança do ventre, vem também Salah, o talentoso avançado do Liverpool.

05 de junho de 2018 às 14:00Viagem ao Egito: dos faraós às baklavas

Cabe ao país dos Faraós e de Salah conseguir mundializar o historial futebolístico continental de sucesso. Será que a Rússia e o Uruguai vão deixar? E o que é os falafel e Elizabeth Taylor tem que ver com isto tudo?

Futebol atual

A única derrota, com Uganda (1-0), não belisca o percurso da seleção orientada pelo veterano Hector Cúper no caminho para o Mundial, deixando ainda Gana e Congo para trás. No atual plantel, há um nome incontornável: Mohamed Salah, avançado do Liverpool, considerado o melhor jogador africano da atualidade. Aos 25 anos, Salah chega à competição na Rússia com estatuto de uma das maiores promessas do Mundial, depois de uma época de sonho no Liverpool, coroada ainda com o título de jogador africano do ano, algo que há 35 anos não acontecia com um futebolista egípcio. A dúvida é saber se depois da lesão na final da Champions, o maestro dos faraós vai estar fisicamente a 100 por cento. Para bem do futebol, esperemos que sim. 

O atual vice-campeão africano - perdeu com os Camarões 2-1 na final do CAN 2017 - regressa a um Mundial quase 30 anos depois da última presença. Desta vez, o obreiro técnico é o globetrotter Hector Cúper, treinador argentino de 62 anos, que conta já com passagens por 13 emblemas, entre clubes e seleções.

 

 


Maldição (do) Mundial
Lembram-se do centro-campista barbudo do Beira-Mar, Abdelghani? Foi ele que ia provocando um sismo em solo egípcio quando empatou, de penalti, o jogo do Itália '90 frente à poderosa Holanda (de Gullit e Van Basten). Houve festança no Cairo e noutras cidades egípicias. Mas a história do Egipto em Mundiais é demasiado escassa para um país que tem a supremacia histórica continental a nível de nações e de clubes. Não faltam países africanos que têm feito brilharetes em Mundiais - Marrocos, Camarões, Nigéria ou o Gana - enquanto que os jogadores egípcios ficam em casa... É apenas a terceira vez que o país se apura para um Mundial.

Em África, a história futebolística é completamente diferente. O Egito é o recordista dos títulos de campeão africano - sete ao todo - e tem os dois clubes mais bem sucedidos do continente, os rivais Al Ahly e Zamalek, com oito e cinco títulos de campeão africano respetivamente. Também não é de desprezar o historial olímpico da seleção de futebol do país, com dois quartos lugares - uma prestação historicamente superior à seleção olímpica portuguesa.  

Se o aveirense Abdelghani pôs a ferver de emoção o Egito, com o penalti marcado à Holanda no Mundial 1990, outro astro egípcio gelou Alvalade dez anos depois, o benfiquista Sabry, com um livre que deixou o guardião grandalhão Schmeichel estático, adiando por mais uma semana a festa do título por que os sportinguistas tanto ansiavam há 18 anos.

 


 
O poder feminino
Antigamente, antes do Islão, a música cabia às mulheres escravas, nomeadamente artistas ou prostitutas, durante a época do caravanismo. Mas onde as mulheres mostram o seu enorme poder é na dança do ventre, que nasceu no Egipto. É o imaginário exótico feminino perfeito, com ondulações abdominais de mulheres sensuais, impecavelmente acompanhadas pelos ritmos dos batuques.

Num país onde os cantores são muitas vezes mais influentes que os próprios presidentes, é também do Egito a grande diva árabe, Umm Kulthum (1904-75), herdeira directa da poesia árabe e da tradição musical ancestral. Grande improvisadora, sempre se recusou a cantar da mesma maneira os versos. Era tão popular que o carismático Presidente, Nasser, respeitou-a, nunca fazendo discursos políticos durante as transmissões radiofónicas dos seus concertos. A morte de Umm Kulthum levou três milhões de pessoas para as ruas do Cairo, aquando do funeral.
 

 

A civilização na ponta da língua
A gastronomia egípcia é ainda muito marcada pela cozinha milenar do tempo dos Faraós, de onde vêm numerosos tipos de pães, que se mantêm na gastronomia atual. Há muito grão de bico e lentilhas nos pratos de comida egípcia, tal como as tâmaras, a fruta milenar da cozinha egípcia, muito presente também nas sobremesas - é de recordar que a tamareira é uma das grandes árvores do Egipto, perto das margens do rio Nilo.

As falafel, os mais conhecidos fritos do Egito (hoje muito comuns em todo o mundo), fazem parte das famosas mezze: conjunto de entradas que enchem a mesa e que por si só valem uma refeição, sempre com arroz mashi, com carne picada e frutos secos. A molokhiya é a sopa mais popular, bem verdinha e aromática, cozida em caldo de frango (ou de coelho ou de peixe, conforme a região). E os grelhados mais famosos são os koftas - espetadas de almôndegas de carne de cordeiro. Nas sobremesas, costumam marcar presença nas recheadas mesas egípcias as baklavas, um folhado doce recheado de frutos secos (pinhões, pistácios e avelãs) e de coco moído.

A nível de bebidas, destaca-se um refresco avermelhado, o karkade, preparado com flor de hibisco, e que se aconselha com muitos cubos de gelo - bebida muito consumida nas Caraíbas, dada a conhecer pelos espanhóis durante os descobrimentos. No inverno, a flor de hibisco pode servir como chá. E não esquecer que a cerveja se bebe desde os tempos da velha civilização egípcia - muito consumida pelos trabalhadores que construíam as pirâmides.

 

 

Faraó a este
O Egito antigo está bem presente nos nossos manuais escolares, na disciplina de história, onde nos familiarizámos com a sociedade estratificada comandada pelos Faraós. As Pirâmides (e a Esfinge de Gizé) fazem há muito parte do roteiro turístico, de um dos berços da civilização que nos deram o grande precursor do papel, o papiro, ou a cama tal como a usamos... Que pena a destruição da Biblioteca de Alexandria, uma das grandes fontes da cultura ancestral.

O velho Egipto inspirou grandes produções de Hollywwod, como os "Dez Mandamentos" (sobre Moisés, interpretado por Charlton Heston), ou "Cleópatra" (Elizabeth Taylor interpreta a grande monarca egípcia e Richard Burton o seu amado Júlio César), e até o filme animado "O Príncipe do Egipto". Mas do próprio Egipto, veio um dos maiores cineastas do mundo, Youssef Chahine, que, em quase 60 anos a realizar, impressionou com o filme "Estação Central do Cairo" (de 1958), num confronto entre o velho e o novo Egipto, ou melhor, na paixão de um ardina por uma mulher sensual. Foi Youssef Chahine que estendeu a passadeira para a carreira internacional de Omar Sharif, o ator egípcio internacionalmente mais famoso, que participou em filmes imortalizados como "Lawrence da Arábia" (de 1962) ou "Doutor Jivago" (de 1968).

O cinema de Youssef Chahine percebeu bem as mudanças implantadas na sociedade egípcia pelo estadista Gamal Abdel Nasser, o grande reformador que governou o Egipto entre 1956 e 1970 e que esteve para unir os países árabes sob o seu carisma.

 

 

Textos: Gonçalo Palma e Paulo Rico

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