NOS Alive: Depeche Mode mostram o peso da história

Rescaldo do dia de fecho do NOS Alive.

Ricardo Pereira
09 de julho de 2017 às 01:43NOS Alive: Depeche Mode mostram o peso da história

Com mais de 35 anos de história e um passado tão acentuado de glória nos anos 80 e 90, a chamada promoção ao vivo a um disco novo passou a ser um pormenor nos Depeche Mode, uma mera desculpa para se tocar o forte contigente de canções antigas.

A desculpa desta vez tinha o nome de "Spirit", o nome do último álbum, editado há poucos meses, mas que não mereceu mais do que três músicas em Algés.

Quem tem consigo canções históricas como 'Everything Counts', 'Stripped' ou, sobretudo, 'Enjoy the Silence' e 'Never Let Me Down Again', tem o show feito. Os Depeche Mode podem dar-se ao luxo de dispensarem do alinhamento músicas que levariam o público ao rubro, como 'It's No Good', 'People Are People' ou 'Policy of Truth' - que não foram tocadas no Alive - que o espetáculo corre bem na mesma.

Ao trio base - o vocalista Dave Gahan, o teclista e guitarrista Martin Gore e o teclista Andrew Fletcher - juntam-se um terceiro teclista e um baterista sempre em grandes trabalhos. No resto, é a repetição de uma receita que corre bem desde os anos 80: Dave Gahan sabe puxar pelo público de forma bem contabilizada nos segundos certos e lá faz aquela coreografia dos braços no ar com o público na apoteose de 'Never Let Me Down Again'; Martin Gore tem sempre as suas duas ou três canções intimistas para fazer valer a sua bela voz (e mais uns minutos de descanso ao corredor de fundo Dave Gahan); e o teclista Andrew Fletcher, com os seus óculos escuros, parece mais um observador de toda aquela ação do que propriamente um interveniente direto.

No encore, os ingleses Depeche Mode, oriundos do tempo futurista dos Kraftwerk, pareciam uma banda blues-rocker do Nevada: 'I Feel You' e 'Personal Jesus' mostram o bom que é Martin Gore ter uma guitarra elétrica slide. Por breves dois temas, não lhes chamem uma banda de synthpop.

Antes, no Palco NOS, houve uma vaga de coldplayite durante duas atuações que afetou, primeiro, os Kodaline e depois os Imagine Dragons. Nas vozes de Steve Garrigan (Kodaline) e de Dan Reynolds (Imagine Dragons), lembrámo-nos de Chris Martin. Tal como com os Coldplay, os Kodaline e os Imagine Dragons são esperançosos e aprumadinhos. Um verdadeiro fã de Coldplay que tenha estado neste sábado no Alive terá tido certamente um bom bocado em frente ao Palco NOS entre as 19h05 e as 20h45.

A abrir o Palco NOS, os Black Mamba mostraram a mescla rara em Portugal de funk, blues, soul e rock & roll. Para isso, ajuda ter nove músicos em palco, sobretudo se um deles for o Pedro Tatanka, um autêntico mestre da guitarra elétrica já tão novo. Ele merece o centro do palco e umas laterais ao seu serviço com dupla de metais de sopro e uma dupla de coros femininos.

Às 21h40, o hangar do Palco Heineken ramificou-se subitamente de bosque e escureceu quando subiram ao palco os barbudos do folk-rock Fleet Foxes (por acaso, agora estão bem menos barbudos), que continuam altamente harmoniosos. A calmaria é ilusória: o baterista está sempre obrigado galopar nos seus tambores;  e há ali uma genica acústica que é muito rock & roller. Houve momentos mais bucólicos de sublime beleza folk, como 'Ragged Wood', que tem uma antologia medieval qualquer, um lindo mistério no meio daquela floresta virtual. Mas há novidades, no que diz respeito às novas canções do terceiro álbum "Crack-Up" que apontam para um perfeccionismo prog-rocker. A grande maioria do público que estava no hangar do Heineken era estrangeiro, num espaço que estava mais desafogado do que é normal para a hora. Culpa dos Depeche Mode?

No final da tarde, o mesmo palco ficou entregue ao bom garage-rock do afroamericano Benjamin Booker, envolvido num quarteto explosivo. Quando a coisa acalma, Booker transforma-se num crooner da soul. Também se pegou com fãs de Spoon mais impacientes. Contextualização: os Spoon eram a banda a seguir.

A edição do Alive que deu à luz o bebé Rodrigo contou com 165 mil espetadores, excluindo os cinco mil trabalhadores que trabalharam em cada um dos três dias do festival. Para o ano há mais, no sítio do costume (o Passeio Marítimo de Algés), a 12, 13 e 14 de julho.

 

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