De botequim a café... de café a história

O Porto permanece imortal em cafés míticos que contam décadas de histórias.

27 de julho de 2016 às 12:15De botequim a café... de café a história
(Texto escrito por Diana Pinheiro para o curso de Ciências da Comunicação da Universidade Lusófona do Porto)

Como os cafés entraram na vida portuense?

Botequim. Era por este nome, desconhecido pela maioria dos jovens de hoje, que eram conhecidos os cafés. Os botequins eram procurados por famílias, para conviver, tomar uma bebida, ou comer um gelado. As pessoas consumiam café de saco, em casa, portanto não era rotina fazê-lo nos botequins. Quando se começa a desenvolver esse hábito, o nome botequim perde-se no tempo e inicia-se o seu reconhecimento como café.

Hoje, no Porto, ainda se pode encontrar vários cafés que acompanharam essa época. A Brasileira e o Imperial que se encontram encerrados como café, mas que mantêm a bela arquitetura e fachada antiga. O Majestic e Guarnay que se encontram abertos ao público, para que este possam contemplar um espaço com requinte, elegância e história.

Germano Silva, jornalista e historiador, conta um pouco dessa evolução.
Entrevista a Germano Silva



A magia do Majestic

O conceito de 'botequim' pode-se ter perdido ao longo das décadas, mas o tempo não transpôs o requinte do café histórico Majestic.


Majestic nos anos 20

Inicialmente conhecido como Elite, o café Majestic ergue-se, na Rua de Santa Catarina, a 17 de dezembro de 1921 sobre um edifício já existente construído em 1916. Inspirado pela Belle Époque, era procurado diariamente pelos estudantes de Belas Artes, que facilmente se encantaram com o espaço e o utilizavam para reuniões, trocar ideias, ou simplesmente para conviverem. O projeto arquitetado por João Queiroz foi considerado um imóvel de interesse público em 1983, acabando por se tornar um ponto obrigatório em qualquer roteiro turístico do Porto.

Sedutor para um elevado número de turistas e também portuenses, alberga várias histórias, épocas e pessoas.

Agostinho Barrias, proprietário desde 1983, considera o café um fenómeno. O orgulho por ter devolvido a sua traça original é notório: «O café estava muito degradado. A condição quando o comprei era devolver-lhe a traça original, pois é isso que me deixa apaixonado», diz.

Quando adquiriu o negócio, vários desafios tiveram que ser ultrapassados. Esteve para ser encerrado devido às condições sanitárias e ao teto degradado. Predisposto a devolver ao povo portuense
aquele espaço, realizou obras para que este respondesse a todos os requisitos necessários.

Com a Segunda Guerra Mundial a crise instalou-se. Isso levou a que os anteriores proprietários vendessem grande parte das cadeiras, mesas e candeeiros: «Tive que fazer uma declaração de tudo o que ia fazer e até me deram os parabéns. Restituí tudo o que faltava, até os candeeiros. Utilizei uma fotografia ampliada através de um microscópio e obtive réplicas perfeitas», conta Agostinho.


Réplicas dos candeeiros originais          


Quando chega o momento de voltar a abrir as portas, em 1994, o sucesso já estava garantido. As rádios, os jornais e as televisões estavam preparadas para marcar o momento daquele que seria um dos cafés mais emblemáticos de sempre. Solicitado por jornalistas de todo o mundo sente-se realizado: «Queriam-me entrevistar pessoas de Itália, França, Bélgica, Alemanha, Brasil… Em 2001, fotografaram o Majestic e as fotos andavam pelos comboios da Bélgica», recorda o proprietário.

Quando o mundo se encanta por um pedacinho de Portugal

Seja de Portugal ou do mundo, todos querem visitar o café que contabiliza várias décadas de triunfo.

«É impressionante receber milhares de pessoas por dia. O espaço é pequeno e as pessoas esperam horas à chuva por poder entrar», conta Agostinho Barrias. No meio desses milhares, várias figuras públicas e de renome foram conhecer o local.

O jornalista Miguel Sousa Tavares, pretendia fazer o lançamento do seu livro 'Equador' rodeado da elegância do café. Seriam convidadas 350 a 400 pessoas e a preferência para aquele momento era sem dúvida o Majestic. A 'história' foi outra e a apresentação decorreu num outro café histórico da cidade do Porto - Guarany - devido à falta de espaço.

Uns assíduos, outros curiosos, foram muitos os que marcaram a sua presença: Jorge Sampaio, Cavaco Silva, Mário Soares, Catarina Furtado, Bárbara Guimarães, Fafá de Belém, Tony Ramos, Regina Duarte, entre muitos outros.

O grandioso cineasta português Manoel Oliveira pertencia ao grupo dos assíduos, conquistando assim um lugar predileto onde se sentava frequentemente.

Para Agostinho Barrias não é fácil escolher os momentos mais marcantes mas recorda alguns: «Quando o Presidente da República Francesa, Jacques Chirac, veio a Portugal, foi visitar o Majestic. Antes de ele chegar o Jornal de Notícias já tinha publicado os locais onde ele iria estar e as respetivas horas. Quando chegou ao café, fazia-se acompanhar pelo nosso Presidente da República da altura, Jorge Sampaio. A rua estava impossível, estavam jornalistas em todo o lado, as pessoas passavam e tentavam ver. A confusão estava de tal forma que perdi de vista o meu filho que falava francês. Acabei a pedir ao nosso Presidente para servir de tradutor para eu cumprimentar o conceituado visitante. Foi fantástico», recorda.

Um outro momento que se recorda com orgulho tem 'toque' brasileiro: ”Juscelino Kubitschek, visitou Portugal como candidato à Presidência do Brasil. Veio conhecer o Majestic e quando regressou ao Brasil não poupou elogios: «Portugal é um jardim à beira mar muito bonito. Gostei de muita coisa, mas o café Majestic é uma coisa fabulosa», conta o proprietário.

O melhor exemplo representativo de Arte Nova da cidade oferece, atualmente, aos seus clientes e visitantes exposições e eventos. O glamoroso chá das cinco mantém-se ao som do piano. Este ano, o edifício – portador de uma fachada única - completa um século de existência.


Guarany, o café dos músicos?


Aliados em 1933


Mantendo-se na mesma linha histórica, o Guarany vive num prédio da Avenida dos Aliados desde 29 de Janeiro de 1933. Agostinho Barrias, o mesmo proprietário do Majestic, adquiriu o café Guarany em 1982.

Há quem pense que este foi o 'salvador' do café aquando da sua reabertura em 2003, mas Agostinho admite as falhas: «Pensam que foi outra pessoa que deixou o café entrar em falência mas fui eu. Dada a situação da Avenida dos Aliados na altura considerei apropriado fazer alterações, mas não correu bem», conta.

A Avenida dos Aliados era uma veia fundamental da cidade do Porto. Várias pessoas habitavam na avenida, existia um elevado número de bancários a trabalhar na praça e ainda jornais como o Comércio do Porto e o Jornal de Notícias. A estratégia funcionou durante oito anos. Grandes balcões inspirados na permanência do dono no Brasil durante onze anos e placas a promover hambúrgueres e pizzas de um metro e vinte cada. Com  a falência dos negócios da avenida, Agostinho Barrias fechou o Guarany. Apaixonado pela traça original de tudo o que encontra, decidiu reabrir em 2003, reanimando o café histórico.

O café tinha 94 mesas. Quando foi restaurado, acompanhou-se a necessidade de se fazer algumas alterações significativas. As mesas e as cadeiras mantiveram-se as originais, embora tivesse existido a carência de aplicar um tampo em cada uma das mesas. O chão é também o mesmo desde o dia em que foi construído.

O seu nome é uma menção ao Brasil do século XX, uma vez que foi o primeiro produtor de café a nível mundial, sendo também Guarany uma tribo indígena proveniente da América do Sul. Algum tempo antes da reabertura,  o proprietário encontrou a cantora brasileira Fafá de Belém no Café Majestic e esta comprometeu-se a enviar-lhe a história dessa mesma tribo. Inspirado nessas histórias, pediu à artista Graça Morais que pintasse duas telas a retratar a vida dos índios para poder expor no Guarany. Para conseguir a perfeição, esta artista passou três semanas no Museu Etnográfico, em Lisboa, para procurar elementos.



Tela da artista Graça Morais exposta no Guarany


Na inauguração não podiam faltar vários pintores (cerca de trinta) para contemplar aquele espaço de arte e cultura. A artista responsável pela obra encontrava-se doente o que impossibilitou a sua ida.

Dono de um primor e de um fascinante espaço, é igualmente cobiçado pela obra do escultor Henrique Moreira, que foi o feitor do 'Índio', o famoso alto-relevo em mármore presente no café.  


Índio em mármore


Para além do requinte portuense e do toque brasileiro pelo qual é reconhecido, há quem lhe chame 'o café dos músicos'. Isto surge aquando da sua abertura por ter diariamente músicos. «Havia uma orquestra de seis a oito elementos que tocava aqui todos os dias. Quando alguém precisava de um músico sabia que bastava dirigir-se ao Guarany», conta Agostinho.


Piano no Guarany


Os mais variados tipos de músicos passaram por aquele 'palco' e a história continua a aplaudi-los. Fado, piano ou cubanos animaram grande parte das noites do Guarany.

Havia quem tocasse também rabecão (instrumento de cordas), mas a animação não foi a mesma: «Um rapaz tocava aqui rabecão. Um dia pediu ao gerente cinquenta escudos (25 cêntimos) e que no entretanto deixava lá o instrumento. Como demorou muito tempo foram confirmar e tinha o trocado por uma vassoura», ri-se o proprietário.

O café tinha um ar condicionado que todos conheciam por 'avozinho'. Quando foi inaugurado dizia-se: «Abriu um café luxuoso na Avenida dos Aliados que no Inverno está quente e no Verão está fresco, com uma máquina que veio da Suiça», diz o dono.

Outra curiosidade dos primórdios deste café era o aviso que se dava quando o café estava pronto. Havia uma luz vermelha no exterior e sempre que esta acendia, as pessoas sabiam que estava a sair café 'fresco' e que estava pronto a ser tomado.

O café começa a fazer história e a ser reconhecido pelas suas caraterísticas, atraindo clientes da elite e empresários. Com ambiente diferenciador de outros espaços, era também utilizado para reproduzir ideias políticas, expandir negócios e até obter fontes de informação jornalística.

O fecho do Guarany seria uma perda para a cidade e abrir num outro edifício perderia o encanto de toda a sua história. O proprietário encontra-se com uma ordem de despejo. Serão cinco anos até ter que abandonar o espaço e restam apenas dois: «O senhorio tem muito poder económico e para ele 4 ou 5 mil euros por mês é muito pouco. Não chegamos a acordo. Se tivermos de sair, vamos para onde? A avenida sem o Guarany vai ficar 'manca'», conta o arrendatário. Embora houvesse vários locais que poderiam acolher o café, ou pelo menos o nome, a história já não seria a mesma: «Ele de sítio não pode mudar. O gaveto onde ele está inserido há 80 anos é único. Pensei mudar para uma loja mas o espaço é muito diferente», refere Agostinho Barrias.

Embora a moção de proteger os cafés históricos de despejo já tenha sido aprovada, ainda terá que ser discutida.

Hoje em dia ainda é possível frequentar o espaço e usufruir das noites que decorrem ao sabor da música.

O desaparecimento de A Brasileira

"A Brasileira" no Porto

O edifício do café A Brasileira, projetado pelo arquiteto Francisco de Oliveira Ferreira, encontra-se localizado na Rua Sá da Bandeira. As portas encontram-se encerradas para futuramente inaugurar um hotel do qual o antigo selecionador nacional, António Oliveira, será proprietário.

O café, que transporta consigo um passado histórico, abriu a 04 de Maio de 1903 pelas mãos de Adriano Teles, um antigo comerciante que esteve vários anos imigrado no Brasil. Antes de voltar para Portugal, Adriano Telles já se encontrava ligado ao negócio do café e tencionava trazer para cá a novidade de servir café à chávena.

Começou a ser conhecido por oferecer café a quem visitava o espaço com o objetivo de promover os sacos de café que muitas pessoas compravam para levar para casa.

Com o surgimento de cafés como A Brasileira entra-se na era da Bellle Époque. Tinha duas caraterísticas que foram marcantes para a sua história: o slogan ainda hoje conhecido: «O melhor café é o da Brazileira» e o símbolo do «velho da chávena».

A Brasileira tinha como clientes habituais os homens relacionados com a política. «Os homens da direita sentavam-se à esquerda e os homens da esquerda sentavam-se à direita», conta Germano Silva, historiador.
Entrevista a Germano Silva
 
O café A Brasileira tinha, anteriormente ao encerramento, sido restituído à cidade do Porto. «Foi devolvido à cidade como mais um lugar evocativo do hábito centenar das bebidas exóticas nos botequins e cafés no Porto», lê-se no tripeiro.

Portador de um requinte único este café distingue-se em 1916 com o seu alpendre envidraçado que ficou para a história como 'imagem de marca do Porto na era novencentista'.

Em 1938 sofre alterações no salão central, onde acolhe para o espaço cristais franceses e alabastros de Vimeiro esculpidos pelo artista Henrique Moreira.


Exemplo de um Alabastro

Em 1960, segundo a Revista Tripeiro, começa a entrar em falência. A partir desse momento, embora fosse um café bastante conceituado, começa a ter várias quebras. Volta a encerrar em 1999, e o visionário Agostinho Barrias, proprietário dos cafés históricos Guarany e Majestic, concorre juntamente com o grupo Amorim e Sonae para adquirir o prédio: «Ainda fomos para negociações finais, mas não me davam garantias que não haveria problemas com o negócio» diz.

Alguns anos depois (2008) o café volta a encerrar por uma negociação que foi considerada nula. Segundo uma notícia do Público, este ainda voltaria a reabrir mais uns meses, mas fecharia em 2009.

Por dentro do Imperial


Entrada do Imperial em 1930


O Imperial. Café com história que foi adormecido da memória dos jovens. Localizado na Avenida dos Aliados, este café caraterizado pela águia imponente que se apresenta na fachada, transformou-se na década de 90 num dos restaurantes mais conhecidos do todo o mundo: o McDonald’s.


Vitrais do Imperial




Vitrais do Imperial

Foi considerado o McDonald’s mais bonito do mundo. Este manteve a belíssima estrutura, os espelhos e o vitral da autoria de Ricardo Leone que o café histórico nos oferecia.

O historiador Germano Silva fala-nos um pouco de como era o café Imperial (1m45s):
 
Entrevista a Germano Silva

¿Texto escrito por Diana Pinheiro para o curso de Ciências da Comunicação da Universidade Lusófona do Porto
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