U2



ENTREVISTA U2 COM PEDRO RIBEIRO

 
O Pedro Ribeiro foi a Londres entrevistar a banda irlandesa no dia 22 de Outubro. A entrevista completa, Bono a cantar, o guilty pleasure do Adam, as confissões do The Edge sobre um clássico que não tocam ao vivo há muito tempo mas que querem voltar a tocar e a visão do Larry sobre como é tocar em palco, todos juntos.
 
"A inocência é um estado de graça" Bono Vox
"As canções não são como filhos. São como pais. Dizem-nos o que devemos fazer" Bono Vox
"Os Bee Gees são génios" Bono Vox
"Queríamos pôr o leite à porta das pessoas mas fomos parar à tigela dos cereais e houve quem fosse intolerante à lactose" Bono Vox (sobre a manobra polémica de música grátis com a Apple)
"Não somos tão bom quanto pensamos e escrever canções é uma forma de arte por dominar" Larry Mullen
"Deixamos de ter inocência quando tomamos consciência da nossa mortalidade. Mas é possível recuperá-la" Bono Vox
"Eu tenho fé mas compreendo que parece absurdo para os cientistas" Bono Vox


Tudo isto e muito mais para ouvir em exclusivo, aqui:
 



ENTREVISTA U2 1ª PARTE
 
A rádio nº1 encontrou-se com a banda nº1 do planeta. Não entrevistámos apenas Bono, entrevistámos os quatro. Não o fizemos por telefone, mas presencialmente. O Pedro Ribeiro encontrou-se há alguns dias com a banda irlandesa, nos estúdios Metropolis, em Londres, em duas conversas separadas: Bono e o baterista Larry Mullen Jr.; o mago da guitarra The Edge e o «jazzman» do baixo Adam Clayton noutra. Nesta entrevista, a banda tem duas certezas: regressaram às grandes canções no novo álbum Songs of Innocence; e irão tocar em Portugal na próxima digressão mundial, só não sabem quando. Em baixo: a primeira parte da entrevista.
 
Se me perguntassem se queria o novo álbum dos U2 de graça no teu iPhone, diria logo que `sim, por favor¿. Acharam estranha esta polémica?  
Adam Clayton - Era um grupo muito pequeno de pessoas. Percebemos que para uma pequena minoria, pode ser muito irritante. Mas vendo bem as coisas, é música de graça, qual é o problema com isso. Quando tivemos a ideia de lançar o disco digitalmente, discutimos a forma como seríamos pagos. Quando fomos ter com os nossos amigos da Apple, disseram-nos que comprariam o disco à editora, o que a deixou muito feliz. 
Bono Vox - `Seria fantástico darmos uma prenda [aos fãs]'. E o Tim Cook [CEO da Apple] pergunta-nos: 'quê, vão dar-lhes uma canção?'. E nós respondemos-lhe: 'não, um álbum inteiro' (risos). 'Vocês vão oferecer-lhes um álbum inteiro de graça?'. 'Não, nós queremos é que vocês nos comprem o disco e lhes ofereçam de graça'. 'Uau', e ele ficou a pensar. Eles [Apple] ficaram com o disco durante um mês e pagaram-nos uma pequena quantia. Não fizemos o álbum de graça.
 
Porque teriam que fazer o álbum de graça? Este é o vosso emprego.
BV - Os músicos merecem ser pagos. Não precisamos de ser pagos porque temos tido uma vida muito abençoada, o nosso público tem-nos permitido isso. Continuamos a merecer ser pagos já que somos nós a compor as canções. Podem dizer-nos: «ah, mas vocês podem vender t-shirts e fazem digressões». Pensemos nos compositores de canções: o Cole Porter não vendia t-shirts e não podia fazer digressões. Se o português for a tua língua principal e perderes um terço ou metade das tuas receitas, deixas de poder ir de férias e passas a sair à noite uma vez por semana em vez de duas. Isto é uma questão muito séria para as pessoas. Mas a Apple é uma empresa que luta para que os músicos sejam pagos. Como é que podes opor-te à Apple de querer recompensar as pessoas que pagam para ouvir música? É absurdo. Algumas pessoas, por fazerem downloads automáticos por não lerem as condições, acabaram [por ficar directamente com os temas]. Queríamos deixar a garrafa de leite junto à porta, e acabou não só dentro do frigorífico como nos próprios cereais. E algumas pessoas tinham intolerância à lactose (risos). Tratou-se de um acidente, não de uma empresa a vender os detalhes individuais das pessoas.
 
Ouvimos as canções novas e apercebemo-nos imediatamente que algumas delas vão ser clássicos. Que lições retiraram de No Line on the Horizon?
Larry Mullen Jr. - O de não sermos tão bons como às vezes pensamos. E que a escrita de canções é uma forma de arte ardilosa para nós e que por isso temos que arranjar uma maneira de compor melhores canções.
AC - Lançámos o álbum antes de o finalizar. Estão lá grandes canções. Mas quando oiço hoje o disco, reparo que não concluímos as canções devidamente. 
 
Mas havia grandes canções no No Line on the Horizon [de 2009]?
LMJ - Não discordo de todo. Mas tratam-se de canções que vão ser tocadas ao vivo, que têm que apanhar o Zeitgeist [o espírito do tempo] e têm que fazer sentido. E não senti isso com o No Line on the Horizon. Tínhamos que ser mais cuidados com a composição e a produção das canções até serem bem decifradas, foi por isso que tivemos agora que demorar tanto tempo.
BV - Não compartilho das preocupações do Larry com o No Line on the Horizon. Gosto de muita música experimental, das não-canções. Mas o Larry tem sido desde o início o mais preocupado com as canções no sentido clássico do termo. Ele odiava o rock progressivo. Lembro-me de lhe mostrar jazz progressivo e dele ficar enojado e de querer rejeitar tudo aquilo. Todos nós fomos formados pela escola do punk, tratavam-se de grandes canções. Este álbum, queríamos que fosse de canções. Songs of Innocence é sobre canções.
 
De que trata este novo álbum?
The Edge - Representa um grande esforço para regressarmos aos nosso primórdios. Por isso, é um disco muito pessoal que reflecte as origens da banda como indivíduos e como músicos: como nos juntámos, como fomos influenciados pela música do final dos anos 70 que vivia a era do punk. É quase um álbum autobiográfico e talvez o mais revelador de todos a nível das letras. Apesar disso, evitámos a nostalgia e o sentimentalismo. Estou muito orgulhoso sobre a forma como o álbum saiu. Para um álbum que é quase conceptual, preocupámo-nos se as canções iam ter um apelo universal. Canções como Every Breaking Wave e Song for Someone são clássicos que poderiam vingar em qualquer outro álbum nosso. 
 
Qual das novas canções acham que vai tornar-se um clássico?
AC - Every Breaking Wave, Song for Someone, Volcano, penso que vamos tocar essa durante muito tempo. Cedarwood Road também tem pernas fortes para andar.  
 
Vão estar em digressão. Tocarão em estádios, em grandes salas?
LMJ - Não sei quando vamos tocar na Europa, mas, se tudo correr bem, vamos iniciar a digressão na América no próximo Verão, em grandes salas que é onde queremos estar. Logo se vê se tocaremos em estádios.
 
Vão regressar a Portugal?
BV - Devemos! Temos que regressar. Temos grandes memórias daí e sentimentos muito fortes. Há aí uma grande paixão por nós. Mexe tanto connosco passarem as nossas músicas na rádio. Os lunáticos que passam 24 horas a nossa música é um certificado de loucura [referência à Rádio Comercial]. Sofrem da mesma megalomania que nós que tentamos impingir a nossa música a meio bilião de pessoas. Fazerem de nós o vosso centro das atenções é muito simpático. Temos que responder e fazer agora de Portugal o nosso centro de atenções por dois dias. Como o faremos, ainda não sabemos. As canções são como os nossos pais: dizem-nos o que devemos fazer, como devemos comportar-nos, a que horas devemos regressar a casa e o que devemos vestir. Estamos a ouvir o que estas canções e que digressões nos dizem para fazermos. Há canções sem tecto como Where the Streets Have No Name. Algumas das novas canções não têm apenas tectos, como são autênticos quartos. Estamos a tentar tocar em espaços fechados mas eventualmente vamos tocar em espaços ao ar livre. Em qualquer uma das dessas opções, seria óptimo tocarmos em Portugal. Em qualquer uma dessas encarnações, encontrar-vos-emos. 
TE - É provável que a digressão dure dois anos. Ainda não sabemos quando mas com toda a certeza que iremos tocar em Portugal.
 
Digressão de dois anos? Tenho 43 anos, como é que vocês arranjam energia para uma coisa dessas?
TE - A energia vem, mal subimos a palco e nos encontramos com o público que nos devolve as canções. Somos nós que tocamos as canções mas o que é importante é o que recebemos da assistência. É um luxo podermos usufruir disto durante dois anos.
 
 
ENTREVISTA U2  PARTE
 
Bono dos U2 à Comercial: «Adoro os Bee Gees»
 
Toda a banda confessa-nos os seus guilty pleasures.
 
Nesta segunda parte da entrevista conduzida pelo Pedro Ribeiro para a Rádio Comercial, os U2 não só nos confessaram os seus guilty pleasures, como o próprio Bono nos canta um deles: Hold Me Close do David Essex. Para The Edge, que se demove de cantar mais porque há um cantor bem melhor que ele na banda, faltam grandes letras ao rock. 
 
Cá entre nós, há alguma canção antiga que não vos apeteça tocar hoje em dia?
Adam Clayton - Passamos sempre por fases em que concordamos dar um repouso a esta ou aquela canção. Reparei que o Bullet the Blue Sky já não faz parte do nosso set há uns bons anos. Está na altura de alterarmos isso.
 
Mas há algumas que vocês não podem parar de tocar?
AC - Certo. Estou a pensar no Where The Streets Have No Name que desde que começámos a tocá-la regularmente, nunca mais saiu do nosso setlist. É uma daquelas canções que é muito difícil não tocar. Algumas há que deixámos de lado e que mais tarde recuperámos, como o But I Still Haven't Found What I'm Looking For que foi o nosso segundo grande êxito na América do Norte, são sempre difíceis de não tocar. Por alguma razão, são grandes canções e amamo-las tanto como qualquer outra pessoa. 
 
Costumam ouvir de tempos a tempos discos antigos vossos, como, por exemplo, o The Unforgettable Fire [de 1984]? O que vos vem à mente quando os ouvem?
The Edge - Vamos ouvindo-os de vez em quando. Fico sempre impressionado pelo quão inovadores os discos ainda são porque não soam a nada da sua era. Às vezes oiço coisas que podiam ter sido melhoradas mas, geralmente, fico bastante satisfeito. Mesmo álbum mais difíceis como o Pop [de 1997] e o No Line on the Horizon têm faixas que me entusiasmam imenso. Podem não ser canções clássicas e provavelmente não as tocaremos mais, mas no outro dia ouvi do Pop o The Playboy Mansion e achei que estava ali uma grande música. Ou o Moment of Surrender do No Line on the Horizon, que grande canção! 
 
 
Um ouvinte sugeriu-me esta pergunta: têm algum guilty pleasure [prazer culposo]?
TE - Gosto muito de electrónica, como os M83, que são completamente club music.
AC - Talvez o disco sound dos anos 70, que odiava quando ouvíamos punk naquela época, e que não compreendia. Mas hoje até gosto, como os Bee Gees, The Gap Band, aquelas música alegres que nos arrebitam.
LMJ - Não há nenhum prazer que me envergonhe. Quando estava a crescer e ainda não podia comprar os meus discos, era obrigado a ouvir lá em casa a música da minha irmã. Redescobri recentemente que esses discos ainda mexem comigo. Um que eu não compreendia era o The Wild, the Innocent & the E Street Shuffle do Bruce Springsteen [álbum de 1973]. Outro disco que não compreendia em miúdo era o Pretzel Logic dos Steely Dan [de 1974]. Quando oiço as canções desse disco apercebo-me que não têm a ver com a minha formação, mas, bolas, eram grandes temas.      
BV - Na música pop, adoro os Bee Gees. Sou louco o suficiente para declarar que eles eram uns génios. Da tragédia ao disco sound, até a temas lá mais atrás como Massachusetts.
 
Eram capazes de tocar esses temas ao vivo? Já vos ouvi a cantar Dancing Queen dos ABBA.
BV - Tenho alguns guilty pleasures na música pop. Mesmo no nosso novo disco, há pedacinhos minúsculos de temas que nos marcaram no nosso crescimento em que se podem pegar como na faixa Iris (Hold Me Close) que se liga a uma canção que ouvia quando eu tinha 14 anos, Hold Me Close do David Essex que foi nº1 do top.
Bono canta o tema durante 30 segundos. 
Adoro essa canção mas não a teria levado para a cozinha do Larry para o nosso primeiro ensaio. 
LMJ - Também não teria sido capaz de levar nenhum tema dos Steely Dan.
 
[Pergunta dirigida a The Edge] Fizemos um top 20 dos melhores temas dos U2 na Rádio Comercial. A mais votada foi One, a segunda mais votada With or Without You mas a terceira não adivinharias... É uma canção de nome Numb. Quando é que voltas a cantar esse tema? Será que te deixam?
TE - Adoro cantar e acho que o faço bem nalgumas coisas. Mas a razão porque não canto mais é porque temos um grande cantor na banda [Risos]. Às vezes estou a cantar no estúdio um tema quando estou a trabalhar num esboço de uma melodia, mas mal o Bono o canta é completamente diferente [mais risos]. É muito difícil para mim competir [com ele].  
 
Que músico gostariam de ver fazer uma versão de um tema dos U2? E que canção seria essa?
AC - Penso que uma versão de Sunday Bloody Sunday pelo Bob Marley teria sido muito interessante. 
TE - Há tantos cantores bons. O Sam Smith, que esteve agora no [programa do] Jools [Holland], é um cantor soul tão bom. Adoraria vê-lo a cantar um tema dos U2. Ou o John Newman, outro grande cantor de soul. O With or Without You seria um bom tema para arrebatar. 
 
Outro ouvinte da rádio, Pedro Santos, diz-nos que em termos de grandes êxitos, parece que vivemos mais no mundo do David Guetta ou do Calvin Harris do que no rock. O que aconteceu ao rock?
AC - Penso que deixaram de existir as grandes canções. Tão simples quanto isso.
 
Não será um problema do rock em si mesmo? Ou serão só das canções?
AC - Penso que é um problema apenas das canções. O rock continuam com um som vital, basta ouvirmos uma banda como os Royal Blood que são espantosos. Eles têm temas muito fortes. Mas os tipos da pop e do r&b estão a escrever melhores canções.
TE - Penso que a qualidade da escrita de letras no rock não tem sido tão boa como foi no passado. O David Guetta tem uma fantástica melodia, Titanium, com uma grande letra. Não é por acidente que temas como estes são grandes êxitos. 
 
É difícil lidar com o estatuto dos U2? São sempre obrigados a atingir outro patamar sempre que editam um disco, certo?
AC - Estás sempre a lançar os dados e a apostar contra ti próprio. Com vista a mantermo-nos interessantes, temos sempre que nos desafiar. Fazer apenas o que parece mais fácil não nos vai fazer sentir assim tão bem. 
 
Tiveram de colocar de fora uma data de canções?
AC - Deitámos algumas fora, sim.
 
Já alguma vez reconheceram: talvez aquela canção seja boa, vamos pegar nela outra vez?
AC - Elas vão para uma concha. E às vezes abrimos essa concha. Uma ideia que não é boa nesta semana, pode ser útil duas semanas depois. 
TE - Um exemplo disso neste disco é o Sleep Like a Baby Tonight que começou a ser trabalhada há alguns anos mas que nunca passou da fase da demo. Era uma demo muito promissora. Sabíamos que era um tema em que iríamos pegar. Tocámos a demo para o Danger Mouse que disse logo: «uau, porreiro, vamos trabalhar nesta canção». E mesmo assim, em todo o processo de gravação do álbum, gastámos no máximo de cinco ou seis dias com a canção e não deixa de ser uma das mais fortes do disco. Há poucas coisas a lembrar: uma grande canção transcende sempre várias eras de novas músicas e de novos géneros. Se for bem feita, a canção será à prova de bala. Foi com o que nos preocupámos nestes últimos anos: as canções.  
 
Gonçalo Palma



U2 EM PORTUGAL?
 
Em julho de 2016, os U2 regressam a Portugal no âmbito da digressão que os irá trazer à Europa. Tem início em maio, em Paris, e chega a Lisboa dois meses depois. Esta tournée decorre em pavilhões e é, por isso, natural que os espetáculos tenham lugar na Meo Arena. Nuno Braamcamp, da R&B, a empresa promotora de eventos responsável pela sua vinda a Portugal nos último anos, garante que tem assegurada a vinda do grupo de Bono, The Edge, Larry Mullen e Adam Clayton. "É verdade!", disse, acrescentando estar "neste momento a discutir o número de concertos" que irão acontecer no nosso país. Serão certamente mais do que dois espetáculos. E ao contrário de outras digressões que passaram por Lisboa, não irão ter lugar no Estádio de Alvalade. Por uma razão muito simples: esta tournée dos U2 é especialmente dedicada a salas fechadas (arenas). Outra certeza é que os U2, ao contrário dos Rolling Stones, continuam sem encabeçar o cartaz dos mais distintos festivais de verão. Um dado relevante pois 2016, como se sabe, é ano de Rock in Rio Lisboa. Da informação recolhida pode retirar-se ainda que esta digressão poderá intitular-se "Volcano Tour", tendo o palco a forma de um vulcão. E dura três meses: começa em maio e termina em julho. Depois disso, os U2 vão de férias. Mas regressam aos Estados Unidos e ao Canadá logo em setembro. Isto é sabido quando os U2 se aprestam a iniciar, a 14 de maio, a digressão "Innocence & Experience" em Vancouver. Será a primeira vez desde que editaram o controverso álbum Songs of Innocence que regressam à estrada. Mais do que isso, a data marca o fim da convalescença de Bono, depois de há meses, ter sofrido um grave acidente de bicicleta em Central Park, Nova Iorque, em que partiu diversos ossos da cabeça, do braço direito e do ombro. Ontem os U2 estiveram a gravar para o programa de televisão de Jimmy Falon (transmissão na sexta-feira), e após essa sessão ofereceram um espetáculo não anunciado numa estação de metro de Nova Iorque.
 
Texto: Blitz

 

Recomendamos

Back to Top